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  • Foto do escritorAndré Ferrreira

Vocação existe?



O termo vocação e o seu derivado "Orientação Vocacional" ficaram muito famosos na cultura popular. Muitos livros, obras de arte e histórias que contamos apresentam personagens que, aparentemente, possuíam dons inatos e ouviam um chamado para realizar um trabalho específico.

Aliás, esta é a etimologia da palavra vocação: ela vem do latim vocare que significa chamado. Inicialmente usado para descrever apenas aquelas pessoas que sentiam-se compelidas ao serviço religioso católico (padres, freiras e abades). Uma vez que antes da modernidade o seu trabalho era definido, em geral, no seu nascimento. Filhos de sapateiros, ferreiros, agricultores, entre outros, normalmente seguiam os passos de seus pais. E as possibilidades de mudanças eram muito escassas.

Na pós-modernidade a identidade das pessoas está intimamente ligada ao trabalho que elas exercem e isso fica evidente também nas produções culturais e nas formas de interação entre as pessoas. Quase sempre adultos se apresentam falando seu nome e sua posição de trabalho. No entanto, o mundo hoje é extremamente diverso e fluido, novas profissões aparecem diariamente enquanto outras desaparecem à medida do caminhar da tecnologia.

Se por um lado a cultura nos diz que cada um tem o seu papel a cumprir e que você deve simplesmente sentir qual é o seu chamado. Por outro lado a ciência critica esse modelo cultural a partir de observações mais sistemáticas. Ou seja, na verdade, para a maioria das pessoas, não há sequer possibilidade de escolha. Muito menos um chamado.

As associações de psicologia brasileiras e internacionais resolveram abandonar o uso do termo vocação, por acreditarem que esta palavra não descreve a realidade do percurso profissional da maioria das pessoas. Hoje, quem pode escolher, enfrenta um cenário de extrema incerteza, volatilidade e mudanças constantes. A separação da ciência psicológica de preceitos religiosos também contribuiu para a adoção de uma nova forma de enxergar este fenômeno.

Hoje sabemos que todas as escolhas profissionais devem levar em conta os contextos sociais, afetivos e cognitivos. Isto é, precisamos entender mais sobre nós mesmos, nossas habilidades, dificuldades e sonhos, sobre o mercado de trabalho e ponderar valores, expectativas, riscos e benefícios. Pode parecer um trabalho mais complexo do que simplesmente sentir o chamado, mas certamente tem mais chances de ter resultados mais satisfatórios.

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